"Se me dizes que uma boa causa santifica uma guerra, eu lhe respondo: uma boa guerra santifica qualquer causa" (Friederich Nietzche)

6.8.07

Uma das conseqüências mais duradouras da Segunda Guerra Mundial: o fuzil de assalto::

Gostaram da parte I? Pois já devem ter reparado que gosto de escrever em partes... Aproveitem então a parte II::

1939-1940: novo do campo de batalha, velhas armas

A concepção do fuzil de assalto expressa uma evolução das doutrinas aplicadas ao campo de batalha, e seus desdobramentos durante o desenrolar do conflito. Na primeira fase da Segunda Guerra Mundial, que corresponde à campanha da Polônia e às campanhas da Noruega, Países Baixos e França, a desconcertante rapidez da vitória alemã ocultou alguns problemas, um deles a inadequação do armamento de infantaria. Essa primeira fase da guerra foi travada por exércitos equipados e treinados para uma luta no estilo da Primeira Guerra Mundial. De fato, Inglaterra e França estavam às voltas com enormes estoques de armamentos herdados da Grande Guerra, por problemas econômicos, não investiram fortemente no reequipamento das forças terrestres. Nos anos de 1930, blindados e aviação observaram grandes avanços, mas apenas a Alemanha formulou uma doutrina e táticas que lhe permitiram explorar ao extremo as potencialidades das novas tecnologias.

Os especialistas militares alemães perceberam o movimento coordenado, baseado em veículos a motor e grande disponibilidade de combustível mudaria o combate, que perderia seus aspectos estáticos e linhas de frente bem definidas. O tiro - fosse de artilharia ou de armas portáteis - não mais se caracterizaria pelos disparos de longo alcance. A guerra de movimento impedia a colocação de tropas em posições estáticas, visto que tais posições eram facilmente ultrapassadas pelo movimento de blindados, acompanhados à curta distância por elementos de infantaria, transportados em veículos protegidos ou em caminhões. Se aproximando rapidamente do inimigo, já desestabilizado pelo fogo aéreo e dos canhões dos blindados, os “infantes blindados” combateriam a uma distância menor – por vezes tendo o inimigo diretamente à vista.

A maximização do movimento exigia o uso de estradas, o que implicava na possibilidade da entrada em cidades – onde geralmente estavam instaladas pontes, entroncamentos e facilidades rodoviárias, mas as cidades se constituíam em um campo de batalha pouco conhecido e estudado, até então. Nas cidades, os defensores podiam movimentar-se e se ocultar facilmente, expondo-se por curto período de tempo. Posições fixas de artilharia e metralhadoras eram, numa tal condição, impensáveis.

As armas disponíveis em 1939 não consideravam nem uma nem outra situação. Basicamente, as que estavam disponíveis eram adaptações feitas ainda durante a Grande Guerra. Por exemplo, as metralhadoras, como forma de ganhar maior mobilidade, passaram a ser equipadas com bipés e ser desenhadas como um fuzil, dotadas de coronha e carregadores tipo “caixa”. Essas modificações visavam dotar os infantes de maior poder de fogo, de modo a conseguir superar posições defensivas entrincheiradas – eram adaptações derivavas das condições da guerra de trincheiras.

Durante a Grande Guerra tinha sido levantada também a possibilidade da substituição do fuzil K98, sendo considerada a adoção de um fuzil semi-automático. Por motivos óbvios, a discussão não foi levada adiante.

Nas submetralhadoras os especialistas enxergaram as armas ideais para o novo campo de batalha: fogo supressivo instantâneo e em grande volume, grande capacidade de munição e pequenas dimensões. Armas como o fuzil Garand M1 e o fuzil semi-automático russo Tokarev, disponíveis em grande quantidade no início da Segunda Guerra, embora projetos posteriores à Grande Guerra, tinham tido em vista as condições daquela. Eram muito mais rápidos de usar do que os fuzis de ferrolho, mas ainda eram grandes, pesados e desajeitados para o uso nos novos campos de batalha.







Um pára-quedista da Luftwaffe dispara o FG42


A pouca eficiência das armas existentes foi constatada pelos alemães ainda em 1940. Na segunda metade desse ano, o Heereswaffen Amt elaborou uma requisição para uma arma longa semi-automática projetada em torno do cartucho IS convencional. O resultado foi o pouco eficaz fuzil G41. Na mesma época em que o G41 entrou em testes, a Luftwaffe, sob cujo controle estavam as tropas aerotrasportadas, solicitou uma arma portátil totalmente automática, também projetada em torno da munição convencional Mauser. A resposta dos projetistas foi o FG42 (de Fallschirmjager Gewehr – “fuzil de pára-quedista”) que, embora já apresentasse algumas características de fuzil de assalto, tinha no uso da munição convencional a principal diferença. Essa arma resultou pesada, difícil de produzir e com alguns problemas que não chegaram a ser resolvidos.


O cerne do problema: munição do século XIX para uma guerra do século XX

O principal problema dessas armas era a potência excessiva do cartucho IS, que gerava um violento recuo, tornando o disparo em rajadas muito difícil de executar, e dessa forma, obrigando o aumento do peso da arma. Essa dificuldade já tinha sido constatada desde os meados dos anos 30. Em 1935, o Heereswaffen Amt voltou a considerar seriamente a adoção de um fuzil semi-automático, ou mesmo de um totalmente automático. Esse debate surgiu na fase inicial do rearmamento alemão, e foi acompanhado da proposta de se desenvolver um cartucho menos potente. O exército, entretanto, aferrado às táticas que privilegiavam o tiro de precisão à longa distância, encarava a idéia com antipatia; as fábricas, totalmente ocupadas com a produção de armamento para dar conta da expansão da Wehrmacht, e já produzindo a munição IS e as armas concebidas para ela, não viam na economia de material uma vantagem determinante.

As experiências que começaram então a ser feitas eram iniciativas de algumas empresas, e não chegaram a resultar em nada concreto. Essas experiências visavam criar uma munição totalmente nova, o que significaria, a médio prazo, a substituição de todos os gabaritos, ferramental e processos utilizados pela indústria alemã de munições – bem como, é claro, das armas que as utilizariam.

A invasão alemã da União Soviética encontrou o Exército Vermelho em processo de substituir os fuzis convencionais por semi-automáticos Tokarev, em números não muito altos, e por submetralhadoras, cujos números já eram muito maiores do que em qualquer outro país – inclusive a Alemanha. As derrotas iniciais, entretanto, fizeram com que os russos perdessem enormes quantidades de armas. Em função da situação crítica daí resultante, no final de 1941, as tropas começaram a receber uma submetralhadora que, embora concebida tendo em vista a produção em massa, era extremamente bem projetada. Tratava-se da PPSh 41 (de pistolet pulemyot – pistola-metralhadora – Shpagina – de Giorgy Shpagin, o projetista). Muito fácil de fabricar, toda feita em metal estampado e sem parafusos, esta arma tinha uma alta cadência de fogo e era simples de operar. Graças à munição utilizada, calibre 7.62X25, podia utilizar um carregador circular (do tipo geralmente conhecido pelos colecionadores brasileiros como “lata de goiabada”) de 71 cargas, copiado da submetralhadora finlandesa Suomi. A combinação dessa arma com táticas que juntavam infantaria e blindados foi suficiente para convencer os alemães da superioridade de tropas totalmente equipadas com armas automáticas, e da necessidade de tomar providências urgentes para preencher essa lacuna.

O cartucho Polte e o surgimento do fuzil de assalto

A primeira providência foi estabelecer requisitos para a nova arma, que foram estabelecidos em 1941: em resumo, deveria ser um fuzil totalmente automático, do mesmo peso ou, preferencialmente mais leve, e também mais curto, que o KAR98, deveria ter um alcance de aproximadamente 600 metros e ter uma cadência de fogo igual à de uma submetralhadora (350-450 salvas por minuto). Essa nova arma, segundo o Departamento de Armamentos do Exército, deveria, em prazo máximo de um ano, substituir os fuzis de ferrolho, submetralhadoras e, nas esquadras de infantaria, as metralhadoras ligeiras. No início do ano de 1942, duas empresas Karl Walther e C. G. Hänel apresentaram protótipos, designados Machinenkarabine (algo como “carabina-metralhadora”) 1942, ou MKb 42(W) e MKb42(H). Ambos os protótipos tinham sido desenhados em torno de um novo tipo de cartucho, chamado Polte, nome da firma em que foi desenvolvido, por requisição direta do HwA, a partir de 1938.









O cartucho Polte, de 7.92X30 mm, de 1938, e o cartucho 7.92X33 mm Kurtz, de 1940


O problema do desenvolvimento de um cartucho totalmente novo – partido adotado por todas as outras empresas – era o fato de que os novos calibres não saiam da prancheta para o estágio de protótipo funcionando bem. Muito pelo contrário. A fase de experiência se prolongava sem a garantia de que o resultado seria satisfatório. A Polte, por sua vez, tinha adotado um conceito que era um verdadeiro “ovo de Colombo”: já que o 7.92 IS funcionava bem, a solução talvez fosse criar uma espécie de “irmão menor”, em que seriam mantidos integralmente os desenhos do projétil e do estojo, mas com comprimento, peso e potência significativamente diminuídos. Por volta do início de 1941 as dimensões de 7.92X33 mmX125 grãos (8 gramas) de pólvora sem fumaça pareceram ser as ideais, conseguindo que a velocidade de boca do disparo, em banco de provas, chegasse a pouco mais de 650 metros por minuto.







Os testes iniciais apontaram a MKb.42(H), desenhada pelo projetista Hugo Schmeisser (bem sucedido desenhista de submetralhadoras, equivocadamente apontado como idealizador das ERMA) como a melhor dentre as concorrentes. O exército encomendou alguns exemplares para avaliação, que foram denominados MP43, notação usada para submetralhadoras. O motivo é bastante curioso: na segunda metade de 1942, um exemplar da MKb42(H) foi apresentada a Hitler. Ao contrário do que era esperado, o ditador teceu uma série de comentários sobre a superioridade das submetralhadoras e, diante dos desconsertados membros do HwA, proibiu qualquer investimento sobre a arma. A partir de então, por sugestão de um projetista da Hänel, a notação MP43 passou a constar dos relatórios. Até o ano de 1944, quando Hitler foi finalmente convencido da superioridade da nova arma de infantaria, todas as referências à ela apareciam como MP.







Infantes alemães da Divisão Blindada-Escola fotografados em algum lugar da Frente Ocidental. O terceiro soldado a partir da esquerda está usando uma MP43. Ao fundo, um PzKpfW V, o Pantera. A divisão era uma das mais melhores da Wehrmacht.




Certa quantidade de “MP43” foi entregue para avaliação às tropas empenhadas na frente oriental, e logo começaram a chegar pedidos de todos os lados. No final do ano de 1943, uma nova versão, denominada MP44, já trazia as características do fuzil de assaltoque se tornaria padrão. O nome SturmGewehr (StG) 44 foi adotado por questões de propaganda. Embora essa designação não coubesse nas normas de referência do exército, soava bem e teve a aprovação entusiástica de Hitler, a partir de uma demonstração um tanto teatral montada por generais do exército em junho de 1944.











Acima, o StG44 com carregador de 30 cargas e, ao lado, o número de carregadores que o exército recomendava que o infante recebesse, ao entrar em ação.


Independente do nome adotado, a arma mostrou-se totalmente eficaz. O infante equipado com ela tinha a cadência de fogo de uma submetralhadora somada à potência e alcance de um fuzil de ferrolho. O desenho “ogival” do projétil, somado potência, eliminavam grande parte dos problemas de estabilidade e precisão observados nas submetralhadoras, permitindo manter, sem grandes alteração de peso – a KAR98K pesava cerca de 4 quilos, no StG o peso, com o carregador de 30 cargas subia a pouco mais de 5 quilos. Este, entretanto, era significativamente mais curto do que o fuzil de ferrolho, e dotado de uma ergonomia que permitia facilitava o disparo em movimento: é significativo o fato de que os StG44 não dispunham de bipé.

É claro que a arma tinha problemas: ainda era considerada um tanto pesada e os infantes reclamavam do fato de que o longo carregador tornava problemático o disparo deitado. Curiosamente, embora considerada pesada, a fabricação quase totalmente feita em metal estampado e plástico a tornava relativamente frágil para as condições de campanha; outra reclamação constante entre os usuários era o excesso de saliências, que a tornava difícil de carregar tanto em descanso de ombro quanto “à bandoleira” (pendurada nas costas através da correia).

Poucas observações sobre o StG44 em combate – não adiantou nada...

Calcula-se que pouco mais de 500.000 StGs tenham sido fabricados, entre 1944 e 1945. Os MKb42 e StG44, ainda escondidos sob a notação de submetralhadora, já estavam disponíveis em meados de 1944, em números bastante limitados, geralmente encaminhados à Frente Oriental, e suficientes apenas para a infantaria das divisões blindadas de elite do exército e da Waffen-SS. Mesmo assim, alguns exemplares foram encontrados nas operações que se seguiram à invasão da Normandia. No final daquele ano, entretanto, a produção da nova arma aumentou em níveis que vieram a permitir distribuição em escala mais ampla. Durante a contra-ofensiva das Ardenas, quantidade razoável de infantes já dispunha de fuzis de assalto, incluíndo algumas de Volksgrenadier, recentemente formadas e que, depois da “operação Valquíria”, gozavam da confiança do partido nazista. No fim da guerra, as operações em torno de Berlim, comandada pelo general-de-exército Waffen-SS Steiner, viram violentos combates nos quais os infantes alemães estavam armados extensivamente com StG 44.








Um atirador de elite (sniper) Waffen-SS usa o StG44, equipado com uma luneta telescópica.


Relatórios feitos tanto pelos aliados quanto pelos russos indicam que um dos motivos que permitiram a unidades alemãs largamente inferiorizadas em números combater com certo sucesso foi a superioridade de fogo dada a eles pelo fuzil de assalto. O maior alcance e peso de fogo da arma combinados com precisão comparável à dos fuzis de ferrolho davam ao infante alemão superioridade tanto em campo aberto quanto em áreas fechadas – as cidades arruinadas da Alemanha. Em certas situações, a arma mostrou poder funcionar inclusive metralhadora ligeira para prover cobertura próxima à infantaria.

Entretanto, na situação caótica dos meses finais da guerra, grandes estoques da nova arma não alcançaram a frente de batalha ou, quando alcançavam não podiam ser utilizados por falta de munição.

Após a guerra, tanto aliados quanto russos examinaram o StG44, mas não manifestaram interesse em colocá-lo em produção. Em 1947 os soviéticos lançaram o AK47, que tinha começado a ser concebido durante a guerra e que, apesar de extremamente parecido com o StG, tinha, com relação ao mesmo, grandes diferenças. Nos anos seguintes surgiriam o FN Herstal, belga (adotado nos anos 60 pelo exército brasileiro), o Heckler-Koch G3 (adotado no final dos anos 60 pela infantaria da FAB) e o M14 (até hoje usado como arma de parada pelos aspirantes a oficial da Escola Naval).

Essa foi a primeira geração de fuzis automáticos. Mas essa já é outra história...::

2 comentários:

Renato disse...

Muito bom, gostei especialmente da parte em que aborda a relação entre o AK-47 e o STG-44. Foi uma análise bem ampla.

Se aceita uma sugestão da tópico, sugeriria abordar a mudança dos tanques pesados para os tanques principais de batalha, muito dessa mudança se baseou nos combates blindados do fronte oriental.

Vou continuar frequentando.

Homem No Espaço disse...

Hey Bitt,

Que bom vc ter reativado seu blog. Boa iniciativa compartilhar seu conhecimento.

Se resolver falar sobre música avise para eu dar uns pitacos. Afinal, Dead can Dance merece comentários :)

Abraço,
Homem No Espaço

nota: Teu link me foi enviado pela Alba!