Causa::

"Se me dizes que uma boa causa santifica uma guerra, eu lhe respondo: uma boa guerra santifica qualquer causa" (Friederich Nietzche)

27.8.07

Um sistema de armas às terças Krupp Fliegendabwehrkanonne 8,8::

Nosso símbolo sexual de hoje é um coroa, já quase chegando aos oitenta anos. Mesmo assim, ainda é um destruídor de corações. Senhoras e senhores, apresento-lhes um dos mais espetaculares, interessantes, atraentes sistemas de armas que vocês podem desejar...

O
Fliegendabwehrkanonne 8,8 cm, mais conhecido entre as tropas da Wehrmacht como “acht-acht”, e entre os aliados como “88”, surgiu em 1928, como Flak 18, desenhado pelas Usinas Krupp, de Essen, na Alemanha. A origem dessa arma remonta à Guerra Franco-Prussiana de 1870. Durante o sítio de Paris, os franceses lançaram mão de alguns balões aerostáticos para observação do movimento das tropas prussianas. O exército imperial solicitou às Usinas Krupp que providenciassem uma arma eficaz contra o equipamento francês, e o resultado foi o BAK 37 (de Balone Abwehrkanonne, “canhão de defesa contra balões”). Tratava-se de uma peça de campanha de 3,7 cm que, perdendo as rodas e ganhando traves de madeira, era montada em uma carroça, num reparo que permitia uma elevação de aproximadamente 60 graus. Esse modelo continuou em atividade após o fim das hostilidades.

Em 1909, quando começaram a ser introduzidas na Alemanha as primeiras aeronaves de uso militar, o exército observou que, a uma altura de mais de 2500 metros (teto máximo das aeronaves daquela época), tanto o BAK 37 quanto as metralhadoras usando o cartucho IS 7,92 mm eram totalmente ineficazes. Entretanto, aquela altura, as aeronaves não eram consideradas ameaça, de modo que, no início da Primeira Guerra Mundial, o exército alemão não dispunha de nenhuma arma genuinamente anti-aérea.

O desenvolvimento da aviação, durante a Grande Guerra, foi notável. Todos os beligerantes perceberam a superioridade do avião sobre o balão, como meio de observação, e logo essas aeronaves começaram a ser caçadas tanto por aeronaves especialmente concebidas (os “caças”), quanto por salvas disparadas do chão. Ainda assim, o armamento anti-aéreo que começou, então, a ser desenvolvido constituía-se de tubos de canhões de campanha de médio calibre montados sobre reparos que permitiam uma ampla elevação. Para aeronaves que voavam no máximo a 3000-3500 metros de altitude, isso parecia ser suficiente.

Entretanto, a partir de 1916 começaram a surgir aeronaves multi-motores, capazes de alcançar um teto máximo de 4500 m a uma velocidade de 120 km/h – eram os primeiros bombardeiros pesados. Em vista dessa nova ameaça, em 1916 a Krupp adaptou o canhão de campanha de 8,8 cm colocando-o sobre numa plataforma com rodas, rebocada por um caminhão. Para ser colocada em “bateria” (posição de tiro) as rodas eram removidas e quatro braços dotados de macacos estabilizavam o conjunto, que pesava uns 7300 kg. A elevação máxima chegava a 70 graus, pois descobriu-se que um valor maior poderia desestabilizar a arma durante o disparo. Essa, de ação semi-automática (expulsava o cartucho vazio da câmara sem necessidade de ação humana), foi denominada Geschütze 8,8 Flak (Flug Abwehr Kanonne, “canhão de defesa contra vôo”). Utilizava munição de 9500 g, sendo que o projétil de alto explosivo pesava 2770 g, com uma velocidade de boca de 785 m/s, o que permitia que atingisse a altitude de 3850 m (a mesma peça, empregada em terra, tinha alcance de 10.800 m).







Um dos primeiros exemplares de Geschütze 8,8 Flak - Flug Abwehr Kanonne em testes de fábrica, por volta de 1916



Durante a guerra, o 8,8 cm foi utilizado na defesa dos parques industriais do Reno e do Rhür, sendo que alguns chegaram a ser instalados em Berlim.

Depois do final da guerra, o Tratado de Versalhes proibiu a Alemanha de desenvolver e fabricar armas anti-aéreas, de modo que os novos desenhos que estavam sendo concebidos foram abandonados.

Durante o período entreguerras, o desenvolvimento da aviação militar foi notável. Nos anos 1920 começaram a aparecer aviões que facilmente superavam a velocidade de 350 km/h e alcançavam um teto máximo de 6000 m. A velocidade de boca do projétil passou a ser crucial, visto que era necessário um projétil que não desacelerasse muito rapidamente devido à força da gravidade.

A resposta dos engenheiros alemães seria o Flak 18 (o “F” mudado para Fliegend “equipamento voador”, ou “aeronave”; hoje em dia, a palavra “Flak” é uma espécie de gíria para “defesa anti-aérea”).

Este começou a ser concebido na primeira metade dos anos de 1920, quando o Reichswehr, o exército nacional que havia sido organizado após a guerra, realizando estudos chegou a conclusão de que havia necessidade de uma artilharia anti-aérea pesada. Os militares alemães concluíram que o menor calibre aceitável era o 7,5 cm, e uma arma começou a ser concebida na Suécia, junto com os arsenais Bofors. Na fase de protótipo, os engenheiros perceberam que o desenvolvimento desse projétil para maiores velocidades de boca seria problemático. O exército então solicitou um calibre maior, demanda atendida tanto pela Krupp quanto pela Rheinmetall.

O calibre 8,8 foi considerado ideal, mas se teve de desenhar um novo cartucho. Essa nova munição, de projétil ogival, montada junto com o estojo, pesava 10400 g e tinha uma velocidade de boca de 820 m/s, alcançando um teto máximo de 8900 m. Empregado como peça de artilharia de campanha, tinha um alcance de 14800 m. Os protótipos não poderiam ser testados na Alemanha, de modo que a equipe de projeto transferiu-se para a Suécia, iniciando o projeto de um canhão em torno desse novo cartucho.

O resultado foi um canhão cujo tubo era forjado em uma única peça, de 56 calibres de comprimento, com câmara de operação semi-automática, que permitia a extração do estojo vazio e introdução de um novo independente da parada do recuo. Isto permitia uma cadência de fogo de 15 a 20 disparos por minuto, dependendo da habilidade da tripulação. O conjunto era montado sobre um reparo cruciforme, que permitia conteira de 360 graus com uma elevação de 77 graus. Uma vez posto em bateria, ficava fixado sobre macacos reguláveis. Para transporte os braços laterais da “cruz” eram rebatidos e dois eixos de rodas, introduzidos. O peso do conjunto era de 4985 kg. Ficou pronto por volta de 1929.







As duas primeiras versões do acht-acht, em primeiro plano o Flak 18 e Flak 36, ao fundo. Note as diferenças no cano das duas versões



A construção e testes dos protótipos cercou-se de segredo, visto que a re-militarização alemã ainda não tinha acontecido. O cano era fabricado em uma peça única, o que tornava o conjunto extremamente difícil de reparar, e muito dispendioso. Isso se devia ao fato de que, em função da rapidez da cadência de fogo, o desgaste do cano mostrou-se muito maior do que o esperado, sendo que a taxa maior acontecia na região imediatamente anterior à boca. A enorme pressão aplicada ali pela alta velocidade e alta taxa de giro axial do projétil e pela saída dos gases provocava atrito no raiamento, que acabava por perder a eficiência. Esse problema não foi corrigido imediatamente, pois a nova peça pareceu muito eficaz. Começou a ser distribuída em 1933, como Flak 18 8.8 cm.

Diversas modificações foram sendo introduzidas, conforme a peça ia sendo testada pelo exército. A principal delas consistiu na divisão do cano em três peças separadas: câmara, seção central e seção de boca, unidos por uma espécie de jaqueta. A divisão tornava a manutenção mais fácil e diminuía o custo do conjunto. Essa modificação teve de ser acompanhada por outras, no reparo, na plataforma e na carreta de transporte.

Testes de campo realizados em 1935 e 1937 mostraram que a nova arma poderia ser empregada como canhão de apoio à infantaria, além de estabelecer a precisão e potência do projétil AAe. Embora o tubo continuasse o mesmo, diversas mudanças no reparo e na plataforma foram feitas ,de modo a tornar o conjunto mais estável durante o tiro. Uma nova carreta de transporte for desenhada, na qual a posição das rodas foi abaixada e o mecanismo e fixação da plataforma na carreta, modificado, de modo que a altura do conjunto canhão,
reparo-plataforma podia ser regulada antes da remoção da carreta. Essa nova plataforma, denominada Sonderanhänger 201 (“carreta especial”) se mostrou eficaz o suficiente para permitir o tiro em ângulos fechados de elevação, sem a remoção da plataforma da carreta, o que permitiu o uso do canhão contra alvos terrestres. Essa nova versão foi distribuída como Flak 36.

A Guerra Civil espanhola iria prover um vasto campo de testes para as novas armas alemãs. Hitler resolveu, por questões políticas, enviar um corpo de voluntários, que nada mais eram do que especialistas das forças armadas, cujo maior contingente pertencia à Luftwaffe. Como a artilharia anti-aérea era responsabilidade desse ramo da Wehrmacht, alguns Flak 18 e 36 foram acrescentados ao inventário de armamentos levados para a Espanha.

Algumas modificações de projeto foram acrescentadas os novos canhões, em função da experiência espanhola. A carreta e a plataforma se tornaram ainda mais estáveis. Essas modificações não chegaram a resultar em uma nova versão, mas confirmaram as potencialidades do projetil 8,8, inclusive como munição antitanque. Na Espanha, o canhão foi utilizado nesta função em algumas oportunidades, mas o número de peças disponíveis era muito pequeno para possibilitar testes de campo efetivos, embora alguns tanques republicanos e pontos fortificados tenham sido destruídos através do chamado “tiro tenso”. Para essa função foi aperfeiçoado um mecanismo de pontaria baseado em um visor telescópico, que passou a ser distribuído em 1938.








Vista lateral e superior do Flak 37. Observe-se a versão final da plataforma



O Flak acht-acht constituiu um autêntico sistema de armas. Ainda que o canhão (o sistema tubo-reparo-plataforma) tivesse atingido um ponto de razoável eficácia, não constituía, por si só, um real sistema de defesa anti-aérea. O passo seguinte foi o aperfeiçoamento do sistema de pontaria, que passou a ser integrado a um sistema de controle de fogo. O centro desse sistema de controle de fogo era o aparelho conhecido como Übertragung 30 (“transportador”). Um computador de dados analógico, conhecido como Voraussichter (“preditor”) compilava dados de telemetria, constituídos por velocidade aproximada, altitude e direção da aeronave inimiga, levantados através de observação via instrumentos óticos. Compilados os dados, eram convertidos em sinais elétricos e transmitidos para um sistema de lâmpadas situado na plataforma do canhão. O impulso elétrico acendia uma lâmpada, e o operador da peça tinha então de mover ponteiros correspondentes, até que estes cobrissem a lâmpada acesa. O sistema, lançado no início dos anos 1930, se demonstrou insatisfatório, e, em em 1939 surgiu o “Transportador 39”, que introduzia motores elétricos sincronizados, operando um conjunto de ponteiros a partir de sinais elétricos enviados pelo “preditor”. Outro conjunto de ponteiros era ligado mecanicamente à plataforma. O apontador operava estes últimos por meio de rotores mecânicos, de modo que coincidissem com aqueles que indicavam os dados compilados pelo previsor. Os dados para ajuste de pontaria eram, então, transmitidos à plataforma, permitindo que o canhão fosse colocado em posição de disparo. Este sistema revelou-se extremamente preciso, e foi a base da defesa anti-aérea da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Durante a guerra, aperfeiçoamentos consistindo na ligação do “preditor” com aparelhos de radar melhoraram consideravelmente a eficácia do sistema.

Em 1940, todas as versões do acht-acht instaladas em “Carretas especiais 201” receberam escudos para dar às tripulações alguma proteção, quando o canhão estivesse atuando como peça terrestre.

No início da guerra, a Luftwaffe previu a necessidade de contar com um Flak cujo teto de emprego fosse ainda maior, visto que os bombardeiros quadrimotores ingleses e norte-americanos podiam operar a 8000 metros de altura. Esse canhão precisaria, portanto, ter uma velocidade de boca inda maior, o que implicava num novo tubo e nova plataforma. A Rheinmetall-Borsig começou a estudar o projeto por volta do final de 1941, e os primeiros exemplares começaram a ser distribuídos em no início de 1943, designados como Flak 41. A nova versão tinha peso total de 11240 kg e peso de combate de 7800 kg. O projétil também foi totalmente redesenhado, de modo a atingir uma velocidade de boca de cerca de 1000 m/s, o que o fazia alcançar 6336 m, com um projétil de 9200 g. Incorporava um mecanismo de disparo elétrico, operacional quando o canhão estivesse sendo usado contra alvos terrestres. Neste caso, seu alcance chegava a 15000 m, eficaz até 10000m, o que o tornava uma arma antitanque imbatível: o projétil perfurante podia penetrar blindagens de até 210 mm, com inclinação de 50 graus. O Flak 41 deu origem à primeira versão do canhão 8,8 especializada para luta antitanque: o PAK 43/41 (Panzer Abwehrkanonne, “canhão de defesa contra blindados”).





Flak 36 como canhão de apoio terrestre, no norte da África, 1941. Note-se o escudo protetor da guarnição


A carreira do acht-acht abrangeu toda a guerra, e esse se tornaria praticamente sinônimo de canhão alemão. A última versão especializada seria produzida, com pequenas modificações, para instalação como armamento de blindados, denominada KwK 36 (KampfwagenKanonn, “canhão de carro de combate”), de 56 calibres.


O projetil 8,8 cm AAe, visto em corte. Note-se o fuso de pressão e o receptáculo interior, capaz de conter mais de três quilos de alto explosivo


Dados não muito precisos indicam que por volta de 17000 tubos calibre 8,8 cm tenham sido produzidos durante a guerra, número que sobre a cerca de 19000 tubos caso sejam somados aqueles especialmente projetados para uso em veículos blindados::

25.8.07

A Guerra do Vietnam – Sobre boas e más analogias::

Ao que parece, Geoge W. resolveu extrapolar. Talvez tenha tido um dia pior dos que os habituais; talvez tenha se engasgado com algum pretzel. Engasgado, certamente ele está, com sua confusa “guerra contra o terror”. Tão engasgado que saiu-se com uma que dificilmente conseguirá superar: mexer com o vespeiro do Vietnam.

Porque o Vietnam, mesmo passados mais de 30 anos desde o fim da guerra, ainda é um vespeiro: um vespeiro do imaginário nacional norte-americano. Basta dizer que sucessivas presidências, republicanas e democratas, não conseguiram provar ao país o argumento de que foi uma causa nobre. Ao contrário da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coréia, últimos conflitos legais em que o país se envolveu, o Vietnam continua sendo a guerra injusta que os EUA perdeu.

Não é pouca coisa, visto que até mesmo o historiador Arthur Schlesinger Jr., modelo, nos anos 1960, de crítica liberal ao governo norte-americano, afirmava que os EUA nunca tinham perdido uma guerra. Schlesinger passou anos clamando pela necessidade de uma saída negociada para o envolvimento norte-americano no Vietnam, e se tornou, no final dos anos 60, um dos principais ativistas contra a guerra. Porque o Vietnam não era uma guerra justa.

A noção de “guerra justa” é muito forte entre os norte-americanos. Além do persistente mito de que “os EUA nunca começaram uma guerra” (veiculado desde o século XIX por políticos e historiadores acadêmicos, e tornado assunto público durante a campanha de Hearst pela intervenção em Cuba), é extremamente arraigada a idéia de que, representando os mais fortes valores do Ocidente e da cristandade, a nação norte-americana pega em armas sempre que esses valores estão ameaçados. Foi assim na Segunda Guerra; foi assim na Coréia, foi assim até mesmo na invasão do Kwait por Sadam.

O fato é que o uso de analogias, pelos governantes dos EUA não é novidade. Certamente George W., nisso, não está inovando em nada. Os políticos de lá invocam, com freqüência, as “lições da história”, como já explicou, de forma brilhante, o historiador Yuen Foong Khong, autor de um livro quase definitivo sobre o assunto. Khong argumenta que o levantamento de analogias tem mais do que a função de justificar políticas de difícil explicação pública. Trata-se de um processo mental destinado a facilitar o processamento cognitivo e informacional presente na tomada de decisões políticas. Assim, analogias com a Segunda Guerra Mundial, a Guerra da Coréia e a derrocada francesa na Indochina tiveram lugar fundamental na decisão norte-americana de intervir no Vietnam e, depois, não apenas na de permanecer, mas de escalar a intervenção. O uso da analogia entretanto, tende a resultar em uma argumentação pobre. Para ser eficaz, deveria levantar fatos de amplo transito entre aqueles que serão alcançados pela mensagem. Desta forma, nem sempre podem ser mobilizadas as melhores comparações, ou por não existirem ou por não apresentarem similaridades perfeitas com a situação que está posta em pauta.

Ou seja, a analogia faz parte de um processo mental normalmente presente na tomada de decisão dos políticos norte-americanos e pode virar uma enorme casca de banana. Aparentemente, foi exatamente nessa que George W. escorregou, embora não possa ser acusado de inventar um absurdo ou ser o primeiro a distorcer a história.

A armadilha fica bem clara na análise feita no dia 23 passado, no NY Times por Thom Shanker. Sumarizada em um de meus blogs do coração, por Thomas de Zengotita, a conversa de George W. com veteranos de guerra (outra importante figura do imaginário nacional norte-americano), mostra uma tentativa de "manipular o patriotismo nato [dos veteranos]”. Segundo Zengotita, “Shanker corretamente chama atenção para a ridícula afirmação de Bush de que a carnificina promovida pelo Khmer Vermelho no Camboja foi conseqüência da retirada Americana do Vietnam, quando, de fato, foi a invasão americana que, em primeiro lugar, inspirou a formação daquela quadrilha insana.” E nem mesmo os argumentos que levaram ao envolvimento norte-americano, que formavam a “teoria do dominó”, mostraram-se corretos, no fim. “Bush disse que nós tínhamos de vencer porque se falhássemos, os comunistas tomariam o poder na Indonésia e nas Filipinas, e quem sabe onde mais. Talvez no Havaí. Foi o que disseram na época. Eu estava lá. Eu lembro. De fato, quando nós finalmente nos retiramos, nada disso aconteceu. O que de fato ocorreu foi que as diferenças sino-soviéticas, postas artificialmente de lado por nossa invasão, explodiram. O que aconteceu foi que a China comunista evoluiu para o bizarro híbrido entre tirania e capitalismo que conhecemos hoje em dia e a União Soviética, para o auto-inflingido copapso.”

Parece que George W. buscava uma analogia que mobilizasse o patriotismo dos veteranos como uma espécie de expressão amplificada do patriotismo nacional, um valor absoluto que conteria a boa disposição do povo norte-americano para as “guerras justas”. Ainda segundo Zengotita, Bush contava com a ignorância sobre história, característica marcante da maioria da população dos EUA. Não acho que tenha sido apenas isso. O presidente ao tentar mobilizar uma analogia, não contava com o fato de que o Vietnam é um vespeiro imaginário. Para o resto da sociedade norte-americana, uma péssima analogia.

Mas, de fato, o que é o Vietnam? Para os norte-americanos, claro, uma lembrança amarga – uma guerra que não resultou em nada. Para George W. deveria ser uma lição de história política.

Pensando bem, talvez George W. leia esse blog... Ahnnnn... Vamos lhe oferecer, então, uma lição de história do Vietnam...

Em seguida::

21.8.07

Um sistema de armas às terças::

Continuo procurando sistemas de armas realmente sexies para apresentar aos leitores de Causa:: O de hoje é realmente de enlouquecer até monge budista. Ou monja - o fato é que esses objetos de desejo podem seduzir homens e mulheres, sem que a paixão desperte qualquer espécie de malediscência... Não acreditam? Pois, senhoras e senhores, apresento-lhes...

Canhão anti-aéreo bi-tubo KD 35 mm Oerlikon

Um pouco de história

O canhão anti-aéreo bi-tubo KDA calibre 35 mm é uma arma destinada à defesa de ponto contra aeronaves em vôo de baixo nível e alta velocidade. Foi projetado na pela empresa Oerlikon, da cidade de Zurique, na Suiça, no início dos anos 50.

O canhão automático de pequeno calibre remonta ao período final da Primeira Guerra Mundial. Foi desenvolvido por um engenheiro alemão que descobriu uma forma de diminuir a cadência de fogo diminuindo o efeito de “ação de recuo a gás” (princípio básico de funcionamento das armas automáticas) e, assim, a velocidade com que os cartuchos são admitidos na câmara. Introduzido em pequenas quantidades pelos alemães no fim da guerra, o canhão automático foi aperfeiçoado no período entreguerras, e se difundiu principalmente como armamento aéreo e anti-aéreo de defesa aproximada, tanto de solo como naval.

A Oerlikon começou a adquirir experiência com canhões automáticos quando, em meados dos anos 20, adquiriu uma empresa que, por sua vez , havia, logo após a guerra, adquirido a patente do canhão automático alemão. De posse desse desenho, que tinha sido bastante aperfeiçoado, Oerlikon desenvolveu, no período entreguerras, um canhão calibre 20 mm de baixo custo, que tanto servia para uso em aviões quanto em navios. Essa arma foi amplamente usada por todos os beligerantes, durante a Segunda Guerra Mundial Mundial. Fabricada em diversas versões, sob licença, na Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos, equipava inclusive aviões japoneses. A versão conhecida como “Tipo S” (em função da munição utilizada) tornou-se a arma anti-aérea mais difundida da Segunda Guerra Mundial.

O uso, amplamente disseminado durante a guerra, de bombardeiros de picada e caças-bombardeiros, ambos aeronaves muito ágeis e, considerando o perfil de ataque que adotavam, extremamente precisas e letais, contribuiu para aumentar a importância da artilharia anti-aérea de pequeno calibre. Conforme a guerra se desenrolava, o aumento da velocidade e da proteção das aeronaves logo obrigou ao aumento da cadência de fogo dessas armas, o que, entretanto, tinha um limite (teoricamente, alçava até 450 salvas por minuto, mas, em combate, dificilmente alcançava mais de 180). A Wehrmacht começou a considerar o uso de canhões bi-tubo e quadritubo (conhecidos como Flak Vierling), embora tivesse dúvidas em torno da real eficácias dessas armas. Na metade da guerra, quando o calibre 20 mm começou a mostrar-se ineficaz, os alemães se voltaram para o calibre 37 mm, que vinha sendo desenvolvido desde os anos 1930.

Após a guerra, examinando alguns exemplares do canhão anti-aéreo alemão, os suíços chegaram à conclusão de que a munição de 37 mm alemã era muito mais eficiente que a utilizada no canhões AAe L60 aliados, baseados no modelo sueco Bofors. Um desenho totalmente novo, baseado no conceito alemão, resultou no cartucho 35X228 mm, pesando 550 gramas, HE (alto-explosivo), com velocidade de boca de 1175 m/s e alcance máximo de 4000 metros.

Em torno da munição 35X228 começou a ser projetado um canhão bi-tubo, 90 calibres, operação de recuo a gás, com uma cadência de tiro de 550 salvas por minuto por tubo, denominado KD. A série KD tem no KDA e no KDC seus principais itens, sendo o primeiro uma versão destinada a montagens terrestres e o KDC, destinado a montagens navais. Colocada no mercado em 1959, veio a se tornar um dos mais bem-sucedidos produtos da indústria bélica suíça. A série C foi colocada em serviço em 1972, destinada à defesa de unidades navais.







Montagem naval KDC 35 mm, como armamento principal de unidade naval de pequeno porte



A versatilidade do 35 KDA (que, para fins comerciais passou a ser conhecido, a partir de 1964, como GDF-001) é demonstrada por sua capacidade de emprego múltiplo, pois, além de arma anti-aérea, pode também ser usado contra alvos em terra, visto que a munição 35X228 também é produzida na versão APDS (munição rompedora de blindagem).






GDF-001 em bateria


Os sistemas Oerlikon, hoje: a série GDF

Os sistemas Oerlikon mais difundidos, as série GDF-001 até 005, alcançam uma cadência de fogo de até 1100 disparos. Na prática, os manuais recomendam rajadas de 2 segundos, o que significa 40 salvas por tubo, ou 80 salvas, ou um peso de fogo da ordem de 22 quilos em cada rajada. Essa capacidade de saturação pode ser ampliada pelo uso de duas unidades. A operação pode ser feita por um único artilheiro, é totalmente automatizada, sendo que a conteira (movimento lateral) e a elevação são controladas por motores elétricos de alto desempenho, acionados por joystick.




Bateria de GDF-002 coordenados por sistema de direção de tiro Skyguard


A máxima eficiência do sistema exige a combinação das armas com unidades de controle de fogo baseadas em radar. Esse sistema, cujo nome comercial é Skyguard, é fabricado pela própria empresa. Colocada no mercado no final dos anos 1970, o Skyguard é instalado em um trailer, e pode ligar até 3 unidades bi-tubo, que passam a ser acionadas de maneira coordenada. O sistema comprende vários sub-sistemas:
localizador de varredura ampla com identificador de intrusos (IFF) gerando acompanhamento e seleção de alvos. A aquisição de alvos pode ser feita por radar ou sistema optrônico baseado em TV, de modo a oferecer opções contra engajamento anti-radar. As baterias são controladas por rede de micro-ondas, podendo ou não haver interferência humana no acionamento final. O sistema é acompanhado por gerador e, com administração de energia, pode ficar ativo por até 36 horas.

Na atualidade, o Grupo Oerlikon-Contraves faz parte da Divisão de Produtos de Defesa Aérea do Grupo Rheinmetall, empresa alemã de longa tradição nesse mercado específico (longa mesmo – forneceram boa parte dos armamentos utilizados pela Alemanha nazista...).

Atualmente, a empresa está desenvolvendo, juntamente com a britânica Royal Ordnance, um sistema de defesa anti-aérea e antimíssil denominado Millenium, projetado em torno do cartucho AHEAD. Trata-se de um sistema totalmente computadorizado, comandando um conjunto de canhões da versãoGDF-007, montados de modo a funcionar como canhão rotativo, monitorados por sistema de direção de tiro de alta precisão. O cartucho AHEAD (35X173mm) é o tipo de munição chamado “inteligente”: contém uma espoleta que é programada ao deixar o tubo, e “acompanha” a trajetória do alvo (geralmente um míssil ou projétil de carga oca). Ao explodir, libera fragmentos diante do alvo. A cadência desse fogo desse sistema pode ser regulada, variando o número de salvas. Por ser passivo, o projétil é resistente a todo tipo de contramedidas eletrônicas. O sistema também pode ser programado para engajar alvos aéreos a distâncias de até 2.500 metros e alvos de superfície a até 4.000 metros.

Um sistema semelhante, embora baseado no reparo norte-americano Bushmaster, para defesa ativa de veículos, está sendo projetado pela Rheinmetall, destinado à defesa aproximada de ponto.

Dados técnicos:
Calibre - 35mm
Comprimento do cano (exceto nas versões GDF-006 e 007) - 90 calibres (31500 mm).
Velocidade de boca -1175 m/s.
Cadência de fogo - 2 x 550 = 1100 disp./min.
Peso do conjunto (sem munição) - 7760 kg.
Peso do conjunto (munição embarcada, 268 salvas por tubo) - 8200 kg.

Tipos de munição disponíveis (35X228): Anti-aéreas - HE (High Explosive - 550 grs), HEI (High Explosive Incendiary - 610 grs); Anti-carro - APDS (Armour Piercieng Discarding Sabot - 294 grs), APFSDS (Armor Piercing Fin Stabilized Discarding Sabot 375 grs)
; Defesa ativa de ponto - FAPDS (Frangible Armour Piercieng Discarding Sabot - 375 grs), AHEAD (Advanced Hit Efficiency And Destruction - 750 grs)





Bateria de GDF-005

20.8.07

Guerra sem limites::

O jornal o Globo, em seu caderno Prosa&Verso, no último sábado (18 de agosto), publicou um dossíê, editado pela jornalista Raquel Bertol, intitulado “Baixas da guerra”, cujo subtítulo apresentava “Confrontos no Iraque destroem, além de vidas, paradigmas da modernidade e são vistos como ´laboratório´ de transformações." O dossiê parece destinado a fazer propaganda da conferência que será proferida dentro de um mês pelo professor Frédéric Gross, no âmbito do ciclo de palestras “Mutações: novas configurações do mundo”, organizado pelo filósofo Adauto Novaes. Segundo explica a jornalista, o ciclo tem por objetivo “entender as grandes mutações do pensamento”.

Não imagino que o respeitável Adauto iria reunir um monte de pesos-pesados da inteligência nacional e internacional perseguindo um objetivo imbecil como esse. Mas isso não importa. O programa está disponível na Grande Rede e quem quiser (e tiver paciência para tanto) poderá até assistir as conferências em tempo real. O que realmente importa, para as reflexões deste pesquisador-amador e domingueiro é o conteúdo do dossiê. O corpo principal apresenta algumas intervenções de especialistas de alto-coturno, como o sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein (um dos espantalhos mais assustadores do indômito site Mídia sem Máscara) e os brasileiros João Camilo Penna e Francisco Carlos Teixeira da Silva, professores da UFRJ.

O texto mais interessante me pareceu ser o do professor Teixeira da Silva, especialista em História Contemporânea. Embora a abertura peque por algumas imprecisões, o texto é bastante interessante e introduz para nós, não-especialistas ou pouco-especialistas (os populares “curiosos”, do qual sou o exemplo mais acabado que conheço), um aspecto novo da guerra contemporânea, que chamo “expansão da noção clausewitziana de guerra”.

Em breve escreverei um comentário sobre o texto do professor Teixeira da Silva em que explicarei essa minha idéia::

Da guerra total à guerra sem limites

O conceito de “guerra total” estrutura-se no século XIX, quando o general Sherman, na Guerra Civil Americana (1861-65), ataca indistintamente alvos civis e militares, destruindo casas, campos agrícolas, indústrias e bens particulares. Ao mesmo tempo, utilizou-se dos novos meios da Revolução Industrial Americana para superar os Confederados, culminando no incêndio de Atalnta e na “Grande Marcha para o Mar”. Estratégias similares foram utilizadas na Guerra da Criméia (1853-56), na Guerra Franco-Prussiana (1870-71) e na Guerra dos Bôeres (1900-02). Na Primeira Guerra (1914-18), o conceito de “guerra total” psaria a desempenhar papel central.

O General Luddendorf no Estado-Maior alemão, adotou tal estratégia, resultando no uso de gases venenosos, ataques maciços contra cidades e a guerra submarina irrestrita (atingindo navios cargueiros e de passageiros). Nesse momento, os progressos tecnológicos constituíram um setor próprio da preparação bélica, ampliando a letalidade da guerra moderna.

A Segunda Guerra (1939-45) viu a tecnologia – transportes, com a aviação; rádio e radar; o poder nuclear; a gestão fordista do abastecimento e da produção bélica – servir-lhe diretamente. Travou-se, no conjunto, todo tipo de guerra. Houve desde guerrilhas, na ex-Iugoslávia ou na Rússia, guerra química (japoneses contra chineses), até o ataque nuclear contra Hiroshima e Nagasaki, e o Holocausto, com sua gestão altamente tecnológica. A indistinção entre alvos civis e militares tornou-se corrente: uma fábrica ou um entrocamento rodoferroviário é uma planta civil ou militar? Quando trens transportam tropas ou fábricas de tecidos produzem materiais para fardamentos, muitos estrategistas alegam tratar-se de legítimos alvos militares – mesmo atingindo centenas de civis. O mesmo ocorre com os meios de comunicação. A TV e as rádios iraquianas em 1991, na Primeira Guerra do Iraque, foram alvos iniciais da colifação da ONU, e a TV nacional da Sérvia, em 1999, foi atacada pelos EUA, morrendo vários jornalistas, sob a acusação de propaganda pró-governo...

A Guerra do Iraque, de 1991, e do Kosovo, de 1999, geraram imensas preocupações no âmbito do pensamento militar. Os estrategistas passaram a temer o chamado “excedente” de poder dos EUA. Buscou-se uma forma de dissuadir ações bélicas americanas, mesmo com recursos inferiores aos acumulados pelos EUA. Assim, dois estretegistas chineses, os coronéis Qiano Liang e Wang Xiang-sui, publicaram o livro “Guerra sem limites” (publicação eletrônica pela Escola de Guerra Naval, Rio, 2003). Trata-se da aplicação da nova noção de “guerra nas condições de alta tecnologia”.

Estratégia revolucionária em seus preceitos que abandona as noções de guerra de massas e de caráter classista, típicas do maoísmo, para pensar a guerra ”como a síntese das técnicas e da mundialização”, e centrar a ênfase na dominância das ações “não-guerreiras” – como uso dos meios econômicos, computacionais, psicológicos. Da mesma forma, a condução da guerra pode e deve, segundo eles, “ultrapassar todas as fronteiras e todos os limites”, incluindo aí a indistinção entrecivis e militares – mesmo no tocante a médicos, jornalistas ou diplomatas. Na nova estratégia, “todos os meios serão disponíveis, a informação será geral e o campo de batalha será difuso”. Não se trata de retorno às formas de guerra irregular, como guerrilhas. Agora, a ênfase é na alta tecnologia, incluindo hackers e a manipulação do fluxo de capitais, disseminação de zoonoses e de epidemias.

Desde então, a noção de “guerra assimétrica” – a guerra do fraco contra o mais forte – passa a estar inteiramente assimilada ao conceito de “guerra sem limites”. A guerra do mais fraco será, no século XXI, sempre irrestrita, utilizando-se de meios não-convencionais. Evidentemente, isto explica o temor das grandes potências acerca da proliferação das chamadas armas de destruição “em massa”. Porém, armas podem ser construídas a partir da tecnologia disponível no cotidiano dos países mais avançados. O uso de tecnologias domésticas (laptops, celulares, aparelhos de radiologia médica, GPS) e de meios civis (aviões de carreira, trens e metrôs) passam a desempenhar um papel central nesta nova e cruel forma de estratégia de guerra. Seqüestros e execuções, com transmissão garantida pela internet, levam a guerra ao coração dos países mais poderosos, servindo simultaneamente para dissuadir empresas a se instalarem num país conflitado e desencorajar suas populações a apoiar as ações militares dos governos. Nessas novas condições de guerra, todos são alvos potenciais.

Hoje, o Iraque é seu grande laboratório::

13.8.07

Um sistema de armas às terças::

Certos blogueiros adoram mulher, ao ponto de colocá-las no seus blogs como assunto... Nada contra. Tendo a concordar - mulher é bom, bonito e... ahnnn... interessante (digamos assim). Mas neste blog, lamento: elas só entrarão caso estejam relacionadas com uma guerra qualquer. Quem sabe... Golda Meir; ou Margaret Tatcher... Condi Rice (tem caras por aí tarados o suficiente para querer ver a Condi pelada).

Não, não. Não farei isso com os leitores. Melhor eleger um bom sistema de armas, que seja altamente sofisticado, lindo. Sexy.

Está combinado, então – toda terça-feira, um sistema de armas. :c) Sempre os meus favoritos.








Lockheed-Martin F-16 Fighting-Falcon

Tipo: Caça

Ano: 1976

Operadores: Bélgica, Chile, Cingapura, Coréia do Sul, Dinamarca, Egito, Emirados Árabes, Estados Unidos, Grécia, Holanda, Indonésia, Israel, Noruega, Nova Zelândia, Paquistão, Portugal, Tailândia, Taiwan, Turquia, Venezuela

Motorização: 1 turbofan Pratt & Whitney F100-PW-220 ou General Eletric F110-GE-129 (últimas versões), com pós-combustão

Pesos: Vazio, 8.433 kg; Máximo na decolagem, 19.187 kg

Dimensões: Altura, 5,09 m; Envergadura, 9,45 m; Comprimento, 15,03 m

Performance: Vel. Máxima, Mach 2.05 a 16.000 m; Vel. máxima ao nível do mar, Mach 1.2; Teto de serviço, 16.750 m; Carga G máxima em curva estreita +9

Autonomia: Máxima (com tanques externos), 3.891 km; Raio de ação,547 km

Armamento: 1 canhão rotativo multicanos Vulcan M61 20 mm com 860 salvas; Mísseis: AAM - IR AIM-9 Sidewinder, ASRAAM; médio/longo alcance guiado por radar - AIM -7 Sparrow, AIM-120 AMRAAM; ASM AGM-84E SLAM, AGM-154A/B JSOW e AGM-65 Maverick, ARM AGM-88 Harm e Shrike; anti-navio, AGM-65 Harpoon, bombas guiadas a laser, guiadas por GPS, JDAM e queda livre.

Histórico e aspectos técnicos gerais

Mesmo com quase pouco mais de 25 anos de serviço, o Lockheed-Martin F-16 Fighting Falcon (“Falcão-caçador”) continua sendo uma dos principais aeronaves de combate do mundo, e provavelmente ainda permanecerá em atividade no mínimo pelas próximas duas décadas. Suas origens remontam aos primeiros anos da década de 1970, resultantes do programa LWF (Light-Weight Fighter, ou “Aeronave de Caça Leve”). Inicialmente, tratava-se de um estudo da Força Aérea dos EUA destinado a demonstrar a viabilidade de uma aeronave leve, com boa capacidade de combate e baixo custo. Transformado em RFP (Request for Proposals – “Solicitação de Propostas”), o programa despertou interesse em cinco empresas, das quais duas foram selecionadas pela USAF em abril de 1972: Northrop, com o Project 600 Cobra Concept (designado YF-17 pela USAF) e General Dynamics (depois adquirida pela Lockheed) com o Model 401 (para a USAF, YF-16). O YF-16 revelou-se, na fase de protótipo, superior ao YF-17 em quase todos os parâmetros: aceleração, autonomia e raio de ação. Em janeiro de 1975 a USAF declarou o avião da General Dynamics vencedor, anunciando, em julho, uma aquisição inicial de 650 unidades do F-16A (monoposto) e F-16B (biposto).

O objetivo do projeto era fornecer um equipamento destinado a complementar as capacidades do F-15A Eagle da McDonnel-Douglas, que tinha entrado em serviço em 1974 e era um caça de superioridade aérea.

O F-16A/B de série era equipado com o radar AN/APG-66, e aviônicos, equipamentos eletrônicos e plataforma de tiro bem mais modernos do que os das versões de teste. O canopí “bubble” de plexiglass de alta densidade proporciona ao piloto amplo campo de visão para o piloto. O assento ejetável ACES II zero-zero inclinado a 30º possibilita alta tolerância a cargas g e escape em altas velocidades. O F16 foi o primeiro caça norte-americano equipado com o sistema HOTAS (hands on throttle and stick), sistema que substituí o tradicional manche central e permite ao piloto realizar as principais operações de controle com uma única mão.

O armamento principal constitui-se de um canhão GE M61A1 Vulcan de 20mm, de uso múltiplo. Para missões ar-ar são utilizados mísseis aam (air-to-air míssil) IR AIM-9 Sidewinder, de guiagem infravermelha, capazes de engajar alvos a curto alcance e numa posição de no máximo 15 graus em relação à proa da plataforma. Posteriormente, uma versão dos A/B conhecida como Block 15 recebeu radares que permitiram a utilização do míssil BVR (beyond visual range – “fora do alcance visual”) AIM-7 Sparrow. Atuando como aeronave tática, o F-16A/B pode ser dotado de bombas tipo cluster, guiadas a laser, de queda livre e mísseis anti-radar Maverick.

Tendo sido adquirido em grandes quantidades pelos EUA e por diversos países aliados, os lotes iniciais de F-16A e B passaram por várias melhorias logo ao início de sua vida operacional, que atingiram os sistemas da aeronave, estrutura, equipamentos defensivos, radar, capacidade de manobra e motorização. Muitas vezes, essas mudanças resultavam num equipamento totalmente recondicionado, em “estado de arte”. Entretanto, mesmo depois dos upgrades, a aeronave mantinha a designação F-16A ou B, mas adicionava um novo block number (número de lote): Block 5, Block 10, Block 15, dependendo da época e intensidade das modificações. Em 1982, a partir da série “lote” 25, mudanças mais profundas, projetadas para aeronaves novas de fábrica introduziram outra notação: F-16C (monoposto) e F-16D (biposto). Essas aeronaves foram as primeiras a operar o míssil ar-ar AIM-120 AMRAAM (Advanced Medium-Range Air-to-Air Missile – “Míssil ar para ar avançado de médio alcance”). Trata-se de um vetor super-sônico com alcance de 60 quilômetros e incorporando o conceito fire and forget (“atire e esqueça”), ou seja, guiagem totalmente independente de três fases: lançamento orientado pelo computador da aeronave; fase de vôo, com sistema de navegação inercial totalmente passivo, imune à contramedidas; engajamento do alvo, guiado por radar ativo. Os F-16C/D podiam realizar missões ar-ar e ar-terra com alto índice de eficiência, o que os tornava superiores aos F-16A/B, otimizados apenas para missões ar-ar, tendo as missões ar-terra como complementares, ou seja – não podiam ser considerados verdadeiros caças táticos.

Os F-16C/D são, de fato, novas aeronaves que utilizam a plataforma F-16. Receberam um novo radar, o AN/APG-68, HUD (head-up display, um sistema que projeta dados no visor do capacete do piloto, permitindo-lhe olhar para a frente durante 85 por cento do tempo de missão) de ângulo aberto, GPS, MFD (multi-frequency discriminator, um tipo de localizador de freqüências que permite à aeronave identificar de que tipo de rastreamento está sendo alvo) e capacidade de ECM – contramedidas eletrônicas.

Nos anos 90, a plataforma passou por novos aperfeiçoamentos, baseados principalmente na experiência de combate real obtida na Guerra do Golfo e nas sugestões feitas pelos israelenses (tidos pelos próprios norte-americanos como os melhores pilotos de F-16 do mundo). O resultado foram os F-16CG/DG “lote” 40/42, equipados com nova motorização e um controle de vôo digital integrado totalmente novo, incorporando capacidade de combate all-weather (“qualquer tempo”, que permite ao piloto voar em visibilidade 0-2, ou seja, nenhuma) obtida através de acompanhadores de terreno look-down (radares secundários que “enxergam” a altitude graças a interpretação de ondas de freqüência altíssima lançadas diretamente ao solo) e designadores de alvo a laser. A partir dessa versão, os Fighting-Falcon passaram a ser totalmente pilotados por 16 computadores integrados, que tanto conduziam a plataforma quanto monitoravam e engajavam os alvos. O piloto apenas supervisionava o conjunto, determinando direção, velocidade e despacho do armamento. Quando a velocidade supera os 1320 km/h ou em certas situações (por exemplo, curvas de alto g) é “impedido” de pilotar, total ou parcialmente, pelo computador.

A série atual do F-16 é o “lote” 50/52. A variação da numeração indica a motorização (50 - Pratt&Whittney; 52 General Eletric). Os novos F16CJ/DJ incorporam melhorias consideráveis em seus equipamentos. O radar AN/APG-68V.5 é capaz de operar em 25 modos ar-ar e ar-superfície – quer dizer, monitora 25 alvos ao mesmo tempo, no ar e na superfície, podendo “enxergar” alvos no ar a distâncias que chegam a 296 km e alvos de superfície em movimento e cursos discrepantes.

A versão F-16CJ/DJ “lote” 50/52 foi oferecida ao Programa F/X da FAB, no início da década de 2000. Não tinha grandes chances, visto que, apesar da previsão de longa vida útil, essas aeronaves já eram consideradas ultrapassadas. Entretanto, agora essa situação mudou um pouco. Com as dificuldades observadas na adaptação do novíssimo Raptor F-22 e os atrasos no programa JSF, que incorporará o F-35 como substituto do F-16, a USAF contratou, junto à Lockheed-Martin um programa de modernização de todos os seus F-16, que permitirá a incorporação de alguns dos componentes do F-35 e da nova geração de armamentos planejados para essa nova aeronave. Alguns especialistas consideram que, lá pelo ano 2025, a USAF talvez ainda esteja operando o F-16, o que o fará uma das aeronaves de vida útil mais longa da história do poderio aéreo.

O lugar da guerra da teoria marxista::

E aí está a segunda (e última) parte do ensaio sobre “o lugar na guerra na teoria marxista”. De fato, após a leitura, teremos notado que tal lugar é bastante modesto, e que Marx, e mais ainda, Engels, lidaram com a guerra levando em conta mais a práxis do que a teoria. Para o marxismo, a práxis é a ação objetiva que, concretizando e superando a atuação meramente teórica, permite ao ser humano construir a si mesmo e, por conseguinte, a seu mundo, de forma livre e autônoma, nos âmbitos cultural, político e econômico. A práxis se manifesta, em última análise, na militância política e na prática teórica engajada. Enfim, coisa que ativistas políticos conhecem muito bem, quando resolvem “cair na clandestinidade”.

Marx e Engels não foram, de modo algum, apenas filósofos. Viveram intensamente uma das épocas mais interessantes da história, na qual o longo processo de liberação plena das forças produtivas, operado pelo surgimento e ascensão do capitalismo. A modificação da sociedade implicou em grandes transformações, mas também em grandes injustiças. A luta contra a situação criada pelo capitalismo foi a luta a que os dois, ambos prolixos jornalistas políticos e propagandistas da causa dos trabalhadores, se dedicaram. A questão da guerra, para ambos, aparece em primeiro lugar como um fator dentro da luta geral de proletários e camponeses.

O autor do texto é Victor Gordon Kiernan, professor emérito de história da Universidade de Edimburgo, autor de dezenas de livros sobre temas como a história do tabaco, os duelos na história européia e um brilhante ensaio sobre Shakespeare. Entretanto, Kiernan destacou-se como autor de textos de análise e interpretação tendo como base a teoria marxista.

Este texto é uma tradução do verbete War, que figura em A dictionary of Marxist thought, editado por Tom Bottomore e publicado em 1983 por Harvard University Press, Cambridge, Mass., USA.

Parte II

Marx compreendeu que os exércitos poderiam exercer certa atração popular, não só para o chauvinismo, mas, por motivos mais sólidos, para aqueles aos quais proporcionava emprego. Na França, os camponeses tinham muito gosto pela guerra e pela glória, escreveu ele, porque o recrutamento militar minorava o excesso de população no campo (cf. O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte, parte VII). As, a partir de 1848, ele e Engels passaram a lutar pela abolição dos exércitos regulares e por sua substituição, não por milícias burguesas do tipo da Guarda Nacional francesa, mas por um “povo armado”, mais democrático. É muito provável que Engels, quando engajou-se com tanto entudiasmo, no corpo de voluntários, na década de 1860, visse nele um passo nessa direção. Na Alemanha e em outros lugares, os partidos socialistas apoiaram essa reivindicação. Os governos, por seu lado, expandiram seus exércitos regulares com base no serviço militar obrigatório. De qualquer modo, Engels – como Lenin – conservou a esperança de que os governos estavam dando às massas um treinamento militar de que elas poderiam se valer para derrubá-los (cf. Anti-Dühring, parte II, cap. 3).

Ao mesmo tempo, ele se sentia preocupado com a hipertrofia dos exércitos, com seu crescimento ao ponto de se transformarem quase em um Estado. As forças armadas se haviam transformado em um fim em si mesmas, escreveu Engels, desalentado (cf. Anti-Dühring, parte II, cap. 3), enquanto a nação era reduzida a um mero apêndice sem outra função senão a de sustentá-lo. Em seus últimos anos, preocupava-se cada vez mais com o perigo da guerra. Não era possível pensar-se agora numa “guerra revolucionária”, e ela não era necessária, pois os partidos socialistas cresciam e pareciam capazes de tomar o poder dentro de pouco tempo por si mesmos. E um conflito travados com as terríveis armas novas representaria um retrocesso terrível para o socialismo e para a civilização.Numa longa carta a Lafargue, datada de 25 de outubro de 1866, sobre a crise balcânica e as forças incendiárias em atividade na região, argumentou que, se houvesse guerra, seu verdadeiro propósito seria conter a revolta social. “Portanto, sou pela ´paz a qualquer preço´...”. Mas, em 1891, Engels tinha algo diferente a dizer: a Alemanha deveria estar preparada para defender-se de um ataque da Rússia e da França, então aliadas. Suas palavras foram citadas em 1914: Engels se esquecera da dificuldade que tinha o homem comum em saber, num caso desses, qual é o lado agressor. Muito próximo do fim, ele acalentou a idéia demasiado esperançosa, de que as novas armas haviam tornado os riscos da guerra muito mais incalculáveis do que qualquer governo ousaria enfrentar, e que as coalizões em que o continente europeu estava dividido poderiam dissolver-se espontâneamente (Carta a P. Lafargue datada de 22 de janeiro de 1895). Em meio à pressão dos acontecimentos e à crescente complexidade das relações internacionais, suas impressões eram, evidentemente, flutuantes: sua lógica nem sempre é fácil de seguir, e nenhuma concepção geral emerge com clareza, nesse último período, de seus escritos.

Seus sucessores herdaram essa perplexidade cada vez maior e mais profunda. Com a aproximação de 1914, as conferências realizadas pela Segunda Internacional, cujos líderes eram, em sua maioria, marxistas ou próximos do marxismo, foram dominadas pelo perigo da guerra. Em 1905, o socialista francês Jaurès fez duas previsões sobre o resultado da guerra européia que ser mostrariam corretas: a guerra poderia desencadear a revolução, mas poderia tornar-se também o limiar de uma era de ódios nacionais, reação e ditadura (In: Margaret Pease. Jean Jaurès: Socialist and Humanitarian.Nova Iorque & Londres, 1916. p. 126). O historiador Karl Kautsky, que depois da morte de Engels tornou-se o principal teórico da Internacional, podia contentar-se com a reflexão de que os sistemas sociais petrificados foram, com muito maior freqüência na história, construídos pela guerra do que pela revolução. Mas compreendeu, como Engels, que o medo da revolução poderia levar um regime inseguro a jogar com a guerra como uma solução. Num estado de espírito mais exaltado, , manifestou a esperança de que a sombra da revolta tivesse o efeito contrário de atemorizar os governos, afastando-os das armas.Durante trinta anos, escreveu ele em Weg zum Macht (O caminho do poder), esse temor teria evitado uma guerra que, de outro modo, já teria estourado há muito tempo (cf. “Weg zum macht”. Neue Zeit n°50,1909, p.149-154). Não podia, porém, contemplar o futuro sem sombrias preocupações. As classes dominantes acusavam-se umas às outras, nos países vizinhos, de conspiração; a hostilidade mútua transformava-se em histeria; a expansão imperialista tornava inevitável a acumulação de armas, que prosseguia até o ponto de exaustão e explosão. Os teóricos acreditavam que apenas a revolução poderia conter essa tendência.

Karl Liebknecht escreveu, no livro que lhe valeria 18 meses de prisão que o militarismo é um fenômeno tão complexo, que se torna muito difícil dissecá-lo. Os militares e os capitalistas não tinham, no seu entender, sentimentos de mútua simpatia, mas pareciam se aceitar uns aos outros como “mal necessário”; financeiramente, o exército era um ônus, embora a maior parte de seu peso recaísse sobre os trabalhadores (cf. Karl LIEBKNECHT. Militarismus und Antimilitarismus (1907). Berlim: Neue Verlag, 1973. p. 48-52).Tal avaliação não pode ser considerada como uma afirmação clara de que a cauda da guerra está no capitalismo, e essa afirmação não se encontra em “O Capital”, e dificilmente pode ser deduzida de seu conteúdo. Entretanto, nos anos anteriores a 1914, parecia bastante natural responsabilizar as classes burguesas e seus clientes pela motivação para a guerra, principalmente porque seus próprios porta-vozes afirmavam, com toda a ênfase, que o comércio seguia os canhões, e que as nações deviam entrar na luta pela existência ou desaparecer. Em 1912, o congresso da Internacional, em Basiléia, Suiça, resolveu que, se a classe operária fosse incapaz de evitar a catástrofe, deveria esforçar-se em promover o fim das hostilidades e valer-se da crise delas resultante para derrubar o capitalismo, pois seria crime trabalhadores se matarem mutuamente em benefício de seus opressores.

Com a chegada de 1914, a Internacional cindiu-se sem possibilidade de acordo, e a cisão do socialismo perdura desde então. Lênin relacionava essa divisão dentre os principais ganhos obtidos pelas classes burguesas com a guerra. No manifesto que preparou para o comitê do Partido em outubro de 1914, sobre a guerra e a social-democracia russa, levou em conta uma quantidade de causas complexas: a corrida armamentista, a luta pelos mercados, os interesses dinásticos das velhas monarquias e o desejo de desviar a atenção e dividir os trabalhadores, cuja resposta deveria ter sido transformar a guerra em guerra civil (cf. Lenin. “The war and the russian social-democracy.” Collected works. Vol. 21. Londres, 1964).Em essência, afirmava Lenin em sua análise do colapso da Segunda Internacional (feita em 1915), todos os governos vinham se preparando para a guerra; todos eram culpados e seria desonesto repetir o que Marx e Engels haviam dito, em outra época e outro contexto, sobre “guerras progressistas” (cf. Lenin. “The collapse of the Second International.” Collected works. Vol. 1. Londres, 1953).

Pode-se dizer que os bolveviques tinham mais a esperar da derrota de seu país do que qualquer outro partido socialista, pois eram demasiado fracos para contar, tão cedo, com uma oportunidade de chegar ao poder que se apresentasse de qualquer outro modo.Mas, com o prosseguimento da guerra, Lenin passou a responsabilidade por ela cada vez mais ao capitalismo, que também era mais fraco na Rússia do que em qualquer outro país beligerante.Este foi o tema predominante de seu livro sobre o imperialismo (cf. Lenin. “Imperialism, highest fase of capitalism”. Collected works. Vol. 22. Londres, 1971). Em seu primeiro congresso, a nova Internacional Comunista confirmou, formalmente, o diagnóstico da Primeira Guerra Mundial como uma explosão das contradições do capitalismo e da anarquia de uma economia por ele governada. A Rússia enfrentava então tensões de outro tipo: a guerra civil combinada com uma intervenção estrangeira. Lenin formulou algumas conclusões políticas a partir dessa situação, em um relatório ao Sétimo Congresso dos Sovietes de toda a Rússia, em dezembro de 1919). “A guerra não é apenas uma continuação da política, é a epítome da política.” ((cf. Lenin (1919). “Report to the &th All Russian Congress of the Soviets.” Collected works. Vol. 30. Londres, 1980). Ele acreditava que a luta estava dando aos operários e camponeses que a estavam colhendo uma educação política muito mais rápida do que teria sido possível em outra circunstância. Quando de seu término, Trotsky, que foi o criador do Exército Vermelho, registrou algumas lições militares que tinham uma essência prática de bom-senso. A guerra não podia ser reduzida à uma ciência com leis eternas, como queriam os tradicionalistas, nem ser guiada, como imaginavam alguns jovens entusiastas, como um jogo de xadrez, por preceitos deduzidos do marxismo.

Pouco depois de 1918, os comunistas advertiram para o perigo de outra guerra mundial. Desde a experiência de 1941-1945, com suas perdas incalculáveis para a URSS, os marxistas (com excessão dos chineses) deram grande ênfase à prevenção da guerra como a mais premente necessidade da humanidade. Numa declaração formal de 1961, na realidade uma rejeição do aventureirismo maoísta e de sua tese da inevitabilidade da guerra, os outros partidos comunistas afirmaram (e nisso não estavam sendo muito exatos) que o marxismo nunca havia considerado a guerra como o caminho por excelência para a revolução. Enquanto isso, o estudo histórico da guerra e da sociedade progredia ativamente, embora muita coisa ainda precise ser melhor compreendida.Os marxistas deram contribuições valiosas para a análise da Segunda Guerra Mundial, chamando atenção para a parcela de responsabilidade que coube aos altos círculos da economia alemã, obscurecida pelo tratamento dado à mesma no Ocidente, onde é caracterizada, simplesmente, como uma luta contra Hitler e o nazismo.Mas não se pode dizer realmente que exista uma doutrina abrangente das causas da guerra que possa ter pretensões ao título de marxista, embora exista uma doutrina leninista relativa às guerras deste século. Entre as diversas hipóteses, a que foi formulada por Engels, no final da vida, de que a guerra tenha mais possibilidade de eclodir com a superacumulação de armamentos, parece ser a única que guarda, hoje em dia, alguma relevância.

As guerras de libertação colonial, nos últimos 50 anos, colocaram novas questões para análise. Receberam dos marxistas aprovação muito mais entusiasmada do que Marx e Engels podiam conferir às guerras de construção nacional européias, no século XIX. Os levantes coloniais foram, em sua maioria, organizados e conduzidos pelos comunistas. Engels escreveu, com freqüência, sobre as campanhas de além-mar,em sua época, particularmente sobre a revolta indiana e a segunda guerra da China (1856-1860); escreveu com espírito altamente crítico sobre o imperialismo, embora manifestasse a expectativa de que ele viesse a mostrar, de maneira não-intencional, revolucionário, pela destruição de velhos regimes, já obsoletos.A estimativa que fazia sobre a capacidade de luta de indianos, persas e chineses, mal organizados e mal liderados, eram, em geral, muito negativas. Nos escritos e discursos de Trotsky durante a guerra civil russa, há uma rejeição inflexível da tática de guerrilha, vista como anárquica e inútil. A experiência posterior mostraria que a guerrilha, guiada por uma firme liderança política e realizada com planejamento militar, pode ser altamente eficaz. Dentre outros, Mao e o general Giap acreditavam ser necessário proceder, o mais depressa possível, a constituição de exércitos regulares, permanecendo as guerrilhas como forças auxiliares. Em áreas amplas, as guerras de libertação colonial conduzidas por guerrilhas chegaram a ter sucesso.

(Tradução e adaptação por J. Bittencourt)

8.8.07

O lugar da guerra da teoria marxista::

Dizer que a guerra é a realidade mais constante na história humana é chover no molhado. Mas temos observado um tipo novo de guerra, promovido, ao longo das últimas duas décadas, em nome de uma “ordem internacional” que visaria promover uma espécie de “paz armada” e um “equilíbrio assimétrico” no aparece certa preponderância dos EUA. Entretanto, uma série de intelectuais de esquerda têm argumentado contra uma relação automática que tende a relacionar essas guerras como a mera expressão da vontade das administrações conservadoras na Casa Branca. Essas teses tentam não relacionar o neoconservadorismo entranhado na administração norte-americana com certo momento que atravessa o sistema capitalista. Mas cabe pensar, ainda que como mero exercício intelectual, se a análise marxista recente, que recupera a teoria marxiana, notadamente o imperialismo (entendido como sistema político, econômico e social) do surgimento das guerras e movimentos agressivos atuais, é cabível, diante do recuo, inclusive acadêmico, desse pensamento.

Muitos observadores, na universidade, na imprensa e nas organizações da sociedade civil, não importa se à direita ou à esquerda, já admitem estarmos diante de um renovado movimento de expansão imperialista. Por outro lado, uma maioria de agentes intelectuais tendem a minimizar essa política como iniciativa de neoconservadores e militaristas, carecendo inclusive de lógica e organização interna. Esta visão tem se tornado dominante entre os críticos liberais da guerra. Por outro lado, uma explicação mais interessante focaliza aspectos que mudam o eixo de entendimento da questão. A estagnação econômica, a globalização financeira, a disputa por recursos naturais, o declínio da hegemonia norte-americana, a fratura de objetivos no mundo capitalista e a ausência de uma superpotência capaz e disposta a opor-se eficazmente, política e militarmente, aos EUA são fatores que impelem ao surgimento de movimentos nos quais as nações centrais – chamadas genericamente de “o Ocidente” - tentem criar condições para manter suas economias nacionais, fortemente entrelaçadas, em expansão. Por outro lado, o aparecimento, na cena internacional, de agentes com capacidade de atuação global e dinamismo que parece exceder a capacidade dos países capitalistas mais antigos, faz com que haja necessidade de garantir posições – situação que lembra, em diversos aspectos, o contexto observado no período compreendido entre 1870 e 1914 – a “fase superior do capitalismo”, conforme designou certo pensador...

O contexto atual tornou-se um estímulo para que os EUA tentassem assumir o papel de potência hegemônica global, colocando-se como potência supranacional e uma espécie de “polícia global”. Não se trata, pois de mera plataforma partidária, mas de objetivos nacionais estabelecidos à longo prazo, apoiados pelas classes dirigentes norte-americanas e perfeitamente expressos, com pequenas divergências, pela classe política, representada nos partidos principais e nas organizações políticas e econômicas da sociedade civil.

E não se trata de um movimento isolado, uma iniciativa observável apenas nos EUA. O apoio dos aliados advém do fato de que os gastos militares necessários para uma política desse caráter constituem um ônus capaz de entravar a expansão dos aparelhos produtivos nacionais, já enredados em problemas não pequenos. O processo, entretanto, parece estar fadado ao fracasso, visto que não existe entre os atores principais unanimidade sobre métodos e sobre o lugar de cada um num contexto futuro. E nem existe segurança que esse contexto se desenhe do modo que tem sido projetado. O que tem acontecido é uma renovada produção da guerra - o que torna mais brilhante o título de um livro escrito dez anos atrás por Phillipe Delmas: "O belo futuro da guerra". E que futuro...

Esta é, evidentemente, uma análise de extração marxiana, baseada na compreensão de certos elementos formulados nos principais textos de Marx, bem como de Friederich Engels. Não espero que todos a aceitem, mas se trata de uma construção lógica razoável. É, em grande parte, baseada nos textos de Paul Sweezy, John Bellamy Foster (adoro esse cara!..) e, lógico, Noam Chomsky (irritemos um ou outro: afinal, o quê a gente ganha com esses blogs, além de diversão?..), e não tem nenhuma novidade.

Entretanto, visto que a guerra é um dos elementos centrais para sua formulação (como é um dos elementos básicos dentro da teoria do imperialismo), é uma pergunta interessante se é bem claro o lugar da guerra na obra de Marx e Engels. Portanto, é uma boa oportunidade para recorrer a um clássico – na próxima postagem, falo sobre o autor. Então, será em duas partes, de novo??? Mas claro - adoro dividir esses textos em partes...


Parte I

Marx e Engels cresceram no período imediatamente posterior aos 25 anos de guerras revolucionárias e napoleônicas, que correspondem a um longo intervalo de paz na Europa, entre 1815 e 1854, e bem pode ter contribuído para levá-los a não considerar a guerra como a mais importante das atividades humanas. Eram, além disso, jovens progressistas de origem burguesa, que cresciam sob um regime político bem pouco simpático , a monarquia militar prussiana. A abordagem da história que eles começaram a desenvolver na década de 1840 teve como pedra fundamental os modos de produção econômica, deixando relativamente de lado as guerras, a violência e a conquista, que os historiadores de então colocavam em lugar de destaque. Em A ideologia alemã, admitiram a freqüência do conflito armado, mas reduziram-lhe a significação, dizendo que os conquistadores tinham de adaptar-se ao sistema produtivo que encontravam, tal como fizeram os bárbaros que dominaram o império romano.

Em 1848, Marx e Engels, membros da Liga Comunista defenderam uma “guerra revolucionária” contra a Rússia. Era uma estratégia baseada no precedente dos exércitos revolucionários franceses, em marcha pela Europa. Desde então, e até o fim de suas vidas, as questões relativas à guerra se impuseram à sua atenção, e com relação a tais questões, desenvolveram interesses divergentes mas complementares: Marx no sentido das questões mais teóricas, Engels ocupando-se dos métodos e da evolução das técnicas da guerra. Este último servira, durante breve período, na artilharia prussiana e participara do abortado levante de 1847 no sudoeste da Alemanha. Uma carta de 1851 mostra que ele planejara uma série de estudos de amplo escopo, com o motivo muito prático de qualificar-se para oferecer orientação por ocasião da próxima explosão revolucionária. Colaborou com numerosos artigos sobre assuntos militares para os comentários feitos por Marx sobre acontecimentos do momento, e estes e outros escritos granjearam-lhe a reputação de especialistas no assunto.

Sobre as relações entre a economia e a guerra na época em que viveram, ou pouco antes, Marx e Engels expressam vários pontos de vista, nunca reunidos de maneira regular. Em A ideologia alemã (vol. I, I,2) e em outros trabalhos, admitiram que o período inicial do capitalismo, até cerca de 1800, com o capital mercantil na liderança havia sido marcado por muitas guerras, motivadas pela luta pelas colônias e concorrência comercial.Mas o capitalismo industrial mais moderno aparecia-lhes , ao que tudo indica, sob outra luz. É de lamentar que Marx e Engels jamais tenham retomado uma intuição antiga, que se revela em A sagrada família (cap. VI, seção 3). Segundo essa passagem, Napoleão, obcecado pela luta militar e pela glória como fim em si mesma, não estimulou a burguesia francesa, abrindo-lhe mercados, mas, ao contrário, afastou-se de seu verdadeiro caminho, que era a construção de uma base industrial para a França. Em 1849, Marx estendeu essa concepção pacífica do capitalismo moderno até a oligarquia financeira, dizendo que essa seria sempre pela pais, pois a guerra fazia baixar as cotações da bolsa de valores (cf. A luta de classes na França de 1848 a 1852, seção 1). Em artigo publicado em 1853, Marx chegou a afirmar que nada, senão uma crise econômica, poderia provocar a guerra ... e poderia provocar a guerra muito mais por motivos políticos do que propriamente econômicos (“Revolução na China e na Europa”, New York Daily Tribune, 14 de junho de 1853). A Europa estava então na iminência da Guerra da Criméia (1854-1856), a primeira de uma nova série de conflitos, e Marx iria demonstrar, pelo evento, apaixonado interesse. Quando a guerra eclodiu, ele tinha perfeita consciência da combinação, do lado dos Aliados, entre motivos econômicos e motivos políticos, e constatou com clareza os motivos de Napoleão III e de lord Palmerson, ambos mais ligados à questões internas de seus países.Condenar a guerra como uma peste imposta pelos governos a seus povos era tendência natural do pensamento desse "jovem Marx". Por outro lado, ele e Engels, bem como Lenin mais tarde, opuseram-se sempre com firmeza ao pacifismo e a preocupação que os dominava, então, era a intervenção do czar, o “policial da Europa”, que tanto contribuíra para derrotar as revoluções de 1848-1849.Uma guerra bem sucedida contra Nicolau I Romanov libertaria a Rússia e abriria o caminho para o progresso na Europa; e mais ainda se uma coalizão convencional entre governos pudesse ser transformada numa guerra verdadeiramente revolucionária de povos e princípios. Marx e Engels se decepcionaram... Engels deplorou a incompetência dos comandantes e a decadência da “arte da guerra”; Marx receava que a guerra pudesse deixar de ser uma ferramenta libertadora e deplorou a “raça domesticada dos homens do presente” (cf. The eastern question, nos 88 e 104), como se a civilização lhe parecesse estar condenada devido à sua incapacidade,somada à fascinação pela prosperidade industrial, de lutar com disposição. Sua aversão pelos donos de moinhos contribuiu para que ele combinasse os ataques ao cobdenismo [de Richard Cobden, industrial e político inglês, defensor agressivo do livre-comércio e da liberdade de iniciativa] com as críticas aquele simulacro de guerra.

Da visão, ou talvez, miragem da “guerra revolucionária”, passou-se ao plano mais realista da aprovação limitada que era possível dar às guerras que se seguiram, até 1870, que seriam classificadas pelo marxismo como “progressistas-burguesas” ou “guerras de libertação” nacional. Os socialistas não podiam tomar parte diretamente nelas, mas considerariam apoiar o lado que apresentasse as perspectivas mais favoráveis à classe operária. Entre essas guerras estava a Guerra da Secessão norte-americana, que Marx e Engels acompanharam com atenção especial, e cuja simpatia pelo Norte não escondiam. Engels, como observador militar, foi surpreendido pelo espírito combativo e competência militar do Sul; Marx esteve mais atento aos fatores subjacentes que apontavam, a médio prazo, uma vitória do Norte.

Na época da Guerra Austro-Prussiana, de 1866, a Primeira Internacional já tinha sido convocada, e uma resolução, não inspirada por Marx ou Engels, conclamou os trabalhadores a se manterem neutros em uma briga que era de interesse dos setores dominantes, representados pelos governos beligerantes. Mas essa guerra, bem como a seguinte, contra a França (1870), ajudaram a promover a unificação da Alemanha, seguida, logo depois, pela da Itália. E, embora Marx e Engels achassem profundamente lamentável que a unificação da Alemanha estivesse sendo feita por elites aristocráticas e plutocráticas, chafiadas por Bismarck, sem a participação ativa dos trabalhadores, ainda assim consideravam o saldo final positivo, por favorecer o crescimento econômico e, por conseguinte, a expansão da classe operária. Por outro lado, inclinavam-se a considerar a guerra de 1870 como resultante de uma provocação de Napoleão III, e, portanto, do lado alemão, uma guerra defensiva. Achavam, entretanto, que os socialistas alemães deviam opor-se às anexações territoriais e trabalhar pela reconciliação com o operariado francês.

Os acontecimentos e novos estudos os levaram a reconsiderar algumas de suas concepções originais sobre o lugar da guerra na história. Curiosamente, foi Engels que se mostrou o menos inclinado a conceder ao fenômeno, lugar de maior destaque. Às voltas com problemas da história antiga, Marx foi obrigado, por volta de 1857, a reconhecer a guerra, pelo menos em certas épocas, como um fator fundamental. A concorrência pela terra, escreveu ele, deve ter feito da atividade guerreira uma das principais tarefas de todas as comunidades agrárias primitivas. Na Grécia, ela era a grande função coletiva, e a cidade desenvolveu-se como seu ponto focal de organização. A guerra e a conquista eram, igualmente, parte integrante da vida romana. Por estimularem a escravidão e a desigualdade, a longo prazo acabaram por subverter a República. Engels, ao contrário, repetiu, no Anti-Dühring, um dos principais postulados de A ideologia alemã: a idéia de que a história seria, essencialmente, a expressão do exercício da força era ridícula. Em 1887-1888, procurou demonstrar que Bismarck havia realizado, involuntariamente, o trabalho da revolução burguesa, acabando com a pletora de pequenos estados alemães, e que o regime por ele criado era um peço temporário a pagar